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  • Writer's pictureDaniele Queiroz

Inscrever-se na história a partir de seus nomes

Nomear, o ato de dar nome à algo ou alguém, talvez seja um desses gestos que nos conectam enquanto espécie. Nomeamos o que percebemos, o que nos rodeia e afeta; nomeamos para exaltar ou oprimir; para garantir tradições, famílias e privilégios; nomeamos para conectarmo-nos com os deuses. Em muitas culturas, o nome é uma palavra sagrada e há magia em usar o nome de alguém.


Deixar de nomear, por sua vez, também é um gesto social e político. Não se pode combater o que não tem nome, já nos ensina o feminismo negro. Ao evitar palavras como machismo e racismo - para citar algumas opressões - evita-se o próprio problema. Nomear é poder.


“Ninguém conta os que não nasceram”, título do mais recente projeto de Flávia Tojal, nos convida a pensar sobre o que não é nomeado e as consequências disso para uma pessoa e sua coletividade. Antes de ter sua filha Manoela, a artista sofreu sucessivos abortos espontâneos. Todas essas gravidezes, muito desejadas e esperadas, inscreveram processos de luto em seu corpo que, uma vez conseguindo engravidar e parir, foram silenciados pela sociedade.


É a partir do rompimento desse silêncio que o trabalho de Flávia se torna coletivo. Em nossa sociedade, pouco importa se uma mulher faz um aborto porque não deseja ter uma criança ou se outra mulher sofre um aborto mesmo desejando uma criança: o corpo de uma mulher é constantemente interditado em suas necessidades, dores, desejos e lutos. Flávia, ao retomar e se apropriar das perdas, advoga a favor dos tabus e das histórias não contadas e, para isso, dá nome ao que não nasceu, inserindo o luto, a sensação de impotência e as complexidades deste processo em sua linhagem e ancestralidade. Mais que isso, a artista encoraja os visitantes a refletirem sobre seus próprios não-nascimentos e dores silenciadas, seja de qual ordem forem.


A exposição apresenta o processo ainda não-finalizado do livro que conta, de maneira subjetiva e não-factual, as sucessivas perdas. A escolha conceitual por dividir o trabalho em andamento com o público é mais uma estratégia de mostrar o que geralmente não é visto, de compartilhar as dúvidas, falhas e eventuais perdas que o próprio livro, enquanto linguagem, também sofreu. Ao escolher esse caminho, a artista abre a fenda de uma arte que só se mostra “bem nascida”, permitindo que tudo o que fica pelo caminho possa respirar e, de algum modo, sobreviver e virar história. Para muitas das coisas que a sociedade chama “fracasso”, Flávia Tojal toma o tempo e cuidado de olhar, embalar, ritualizar e, antes de se despedir, renomear.


Texto elaborado em setembro de 2022 para a ocasião de abertura da exposição "Não nascidos contam", da artista Flávia Tojal no Espaço Ophicina, São Paulo.


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